
Relacionamentos amorosos e sexuais com inteligência artificial já deixaram de ser apenas ficção científica e passaram a fazer parte da realidade de muitas pessoas. O fenômeno, conhecido como digissexualidade, ganhou força com o avanço da tecnologia, da inteligência artificial e das interações digitais cada vez mais imersivas.
Segundo entrevista ao Estadão, a professora e pesquisadora do Ambulatório de Dependência Tecnológica do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Carla Cavalheiro Moura, explica que a digissexualidade não é um transtorno nem um diagnóstico médico.
O que é digissexualidade?
De acordo com a especialista, o termo surgiu em 2017 para definir novas formas de interação sexual mediadas pela tecnologia. Inicialmente, essas relações aconteciam por meio de conteúdos digitais, como a pornografia. Com o avanço da inteligência artificial, da realidade virtual e até de robôs realistas, as experiências passaram a ser mais imersivas.
A pesquisadora cita o conceito de “duas ondas” da digissexualidade, apresentado pelo professor Mark Arthur em artigo publicado em 2019 na plataforma The Conversation. A primeira onda envolvia a sexualidade mediada pela tecnologia. Já a segunda inclui experiências em que a tecnologia ocupa o centro da relação.
Segundo Carla Cavalheiro, essas interações muitas vezes ultrapassam o aspecto sexual e envolvem também carinho, amor e romantismo.
Solidão e isolamento impulsionam relações digitais
A especialista afirma que o crescimento desse tipo de relação está diretamente ligado à chamada epidemia de solidão e ao aumento da dependência tecnológica.
Ela explica que muitas pessoas relatam cansaço das relações presenciais e dizem sentir-se emocionalmente completas em interações com chatbots. Entre os relatos mais frequentes estão frases como “tenho baixa bateria social” ou “estou esgotada de me relacionar com pessoas”.
Para a pesquisadora, a pandemia intensificou um processo que já vinha crescendo com o avanço dos smartphones e da vida digital. Segundo ela, as interações presenciais envolvem elementos que não existem nas relações online, como linguagem corporal, olhares, silêncios e outras formas de comunicação humana.
Especialista alerta para perda de habilidades sociais
Carla Cavalheiro também chama atenção para os impactos do excesso de telas no desenvolvimento humano. Ela cita estudos que apontam atrasos importantes no desenvolvimento da linguagem infantil, associados à menor interação presencial com outras pessoas.
Segundo a especialista, o ser humano aprende habilidades sociais e emocionais principalmente por meio da convivência presencial. Nas relações digitais, especialmente com inteligências artificiais, existe o risco de a pessoa criar a falsa sensação de que está se relacionando com alguém real.
Ela alerta que alguns usuários acabam reduzindo o interesse por relações presenciais e pelo contato humano direto.
Jovens fazem menos sexo, aponta pesquisadora
A pesquisadora afirma ainda que estudos recentes mostram que os jovens estão fazendo menos sexo do que em gerações anteriores. Segundo ela, alguns relatam satisfação apenas com práticas individuais mediadas pela tecnologia, sem sentir necessidade de experiências presenciais.
Apesar do avanço dessa tendência, Carla Cavalheiro defende que é necessário manter senso crítico sobre os impactos da tecnologia na sexualidade e nos relacionamentos humanos.
Para ela, embora a tecnologia traga facilidades e experiências positivas, também é importante refletir sobre o que está sendo perdido nas relações presenciais e humanas.