
Nascido no subúrbio de Teresina, no Piauí, o ministro Kassio Nunes Marques percorreu um longo caminho até chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF). Antes de ocupar uma cadeira na Corte, vendeu laranjas, administrou um carrinho de cachorro-quente, foi dono de lotérica e empresário no comércio. Hoje, aos 53 anos, assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável por conduzir as eleições presidenciais deste ano.
Segundo reportagem do Estadão, assinada pela jornalista Carolina Brígido, a ascensão do ministro foi construída com apoio político e forte articulação nos bastidores. Após se formar em Direito, em 1996, abriu escritório de advocacia e atuou para empresas como Eletrobras, Banco do Estado do Piauí e Rede Ferroviária Federal. Também integrou o setor jurídico de um conglomerado ligado à Unimed.
Ascensão no Judiciário e aproximação com o Centrão
A entrada no Judiciário ocorreu em 2008, quando foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI). Mais tarde, aproximou-se de figuras influentes do MDB, como José Sarney e Romero Jucá, até ser nomeado desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília, pela então presidente Dilma Rousseff.
Na capital federal, Nunes Marques ampliou conexões políticas e estreitou relações com integrantes do Centrão. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) tornou-se um dos principais aliados do ministro e foi responsável por aproximá-lo do então presidente Jair Bolsonaro.
O apoio decisivo para a ida ao STF, em 2020, veio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Kassio Nunes Marques acabou escolhido para ocupar a vaga deixada por Celso de Mello no Supremo.
Caso Master e pressão no STF
O nome do ministro voltou ao centro das discussões políticas após ele ser sorteado relator de um mandado de segurança que cobra a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master. A ação foi apresentada ao STF depois que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não instalou a comissão.
Segundo investigação da Polícia Federal, Ciro Nogueira teria recebido vantagens do banqueiro Daniel Vorcaro em troca de atuação política em defesa dos interesses do banco no Congresso. O caso também envolveu indiretamente o nome de Nunes Marques após revelações sobre pagamentos feitos pelo Banco Master a uma consultoria que posteriormente contratou um dos filhos do ministro.
Relação com Bolsonaro e aproximação com Lula
Apesar da imagem associada ao bolsonarismo, interlocutores do STF afirmam que Nunes Marques nunca manteve relação próxima com Jair Bolsonaro. Sua ligação política sempre esteve mais alinhada a integrantes do PP e do União Brasil.
Com a chegada de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, o ministro passou a estreitar relações com o novo governo. O advogado-geral da União, Jorge Messias, foi um dos responsáveis pela aproximação entre os dois.
Nos bastidores, ministros do Supremo avaliam que Lula mantém boa relação com Nunes Marques, em parte pela origem humilde e nordestina compartilhada pelos dois. O presidente também teria adotado postura pragmática diante do fato de o ministro assumir justamente a presidência do TSE em ano eleitoral.
O “rei das festas” de Brasília
Discreto nas sessões do STF, onde raramente participa de embates públicos, Nunes Marques ganhou fama nos bastidores pelo perfil conciliador e pelas festas promovidas em sua residência no Lago Sul, em Brasília.
Os encontros reúnem ministros do STF, parlamentares, governadores, integrantes do STJ, empresários e artistas. Entre os frequentadores estão Michel Temer, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, André Mendonça, Hugo Motta, Ciro Nogueira, além de nomes da música como Diogo Nogueira, Jorge Aragão, Gusttavo Lima, Leonardo e Zeca Pagodinho.
Segundo convidados, o ministro evita debates políticos durante os eventos e prefere um ambiente voltado à convivência social. “É um momento para relaxar um pouco”, afirmou Nunes Marques.