
Aos 80 anos e prestes a completar 12 anos na Presidência da República somando seus três mandatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um desafio que vai além da idade: o desgaste provocado por mais de quatro décadas de presença constante na política nacional. Especialistas avaliam que o presidente convive com um fenômeno conhecido no marketing político como “fadiga de material”, caracterizado pelo esgotamento da força de uma liderança após longo período de exposição pública.
A tentativa de afastar questionamentos sobre sua idade tornou-se parte da estratégia de comunicação do governo. Em eventos oficiais, Lula costuma acelerar o passo diante das câmeras, enquanto vídeos praticando exercícios físicos são frequentemente divulgados nas redes sociais. Na semana passada, a primeira-dama Janja compartilhou imagens do presidente treinando sem camisa às seis da manhã, acompanhadas da legenda: “Feriadão nesse pique”.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a questão etária é apenas uma parte do cenário. Para analistas, o principal desafio está relacionado à extensa trajetória política do petista, que se tornou, em 2025, o primeiro octogenário a ocupar a Presidência da República.
Uma trajetória que atravessa gerações
Lula participa do cenário político brasileiro desde os anos 1980 e esteve presente em sete das nove eleições presidenciais realizadas após a redemocratização. As únicas exceções ocorreram em 2010 e 2014, quando apoiou a eleição de Dilma Rousseff, e em 2018, quando teve sua candidatura barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Até o fim de 2026, Lula terá acumulado 12 anos no comando do país, marca que o coloca como o terceiro governante com mais tempo no poder na história do Brasil. À sua frente estão apenas Dom Pedro II, que governou por 49 anos, e Getúlio Vargas, com 18 anos de poder.
O Partido dos Trabalhadores também mantém longa permanência no governo federal. Somados os mandatos petistas, a legenda terá governado o país durante 17 anos neste século.
Desgaste político e desafios de comunicação
Para Paulo Loiola, consultor de marketing eleitoral especializado no campo progressista, o tempo no poder não é, isoladamente, o principal fator de desgaste. Ele aponta que crises associadas ao PT, como o mensalão e a Operação Lava Jato, somadas à atuação organizada da oposição, contribuíram para a deterioração da imagem do partido.
Loiola avalia ainda que a esquerda enfrenta dificuldades para ampliar sua comunicação digital, mesmo defendendo pautas que encontram respaldo na sociedade, como a soberania nacional e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês.
Já o consultor Lucas Pimenta afirma que a fadiga da imagem de Lula está ligada à dificuldade de dialogar com transformações recentes do mercado de trabalho. Segundo ele, o presidente não consegue estabelecer conexão com parte dos novos trabalhadores brasileiros, especialmente aqueles que valorizam autonomia e empreendedorismo.
Popularidade e novas demandas do eleitorado
Pesquisa Datafolha citada na reportagem aponta que 38% dos entrevistados avaliam o governo Lula de forma negativa, enquanto 32% têm avaliação positiva. O presidente é visto pela maioria como o candidato mais experiente, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece como o mais moderno e inovador.
Em ano pré-eleitoral, Lula lançou medidas como o Desenrola 2.0, o Gás do Povo e o Luz do Povo. Mais recentemente, passou a defender o fim da escala de trabalho 6×1, proposta que, segundo o governo, beneficiaria cerca de 37 milhões de brasileiros.
Apesar disso, especialistas argumentam que o presidente ainda busca recuperar elementos que marcaram seus dois primeiros mandatos, estratégia que pode limitar sua capacidade de dialogar com novas demandas sociais e econômicas.
Gafes e mudança de imagem pública
Outro fator apontado como desgaste é o acúmulo de declarações consideradas inadequadas por parte da opinião pública. Algumas delas tiveram repercussão especialmente entre as mulheres, que representam a maior parcela do eleitorado brasileiro.
Nos últimos anos, Lula protagonizou falas que geraram críticas, como comentários sobre violência contra a mulher e observações relacionadas ao consumo feminino. Para Lucas Pimenta, esses episódios reforçam a percepção de desconexão com transformações culturais recentes.
O consultor também identifica uma mudança na construção da imagem do presidente. Se nos primeiros mandatos Lula era visto como o “pai dos pobres”, atualmente tenta assumir o papel de protagonista no enfrentamento ao bolsonarismo. Segundo ele, a centralidade da disputa ideológica pode gerar desgaste junto a parte do eleitorado.
O desafio da renovação política
Para Leonardo Belinelli, professor de ciência política da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o longo tempo de Lula na vida pública também reflete o sucesso de políticas que ampliaram a inclusão social de setores historicamente marginalizados.
O pesquisador, no entanto, alerta que a repetição de discursos pode se transformar em armadilha diante de mudanças profundas na sociedade. Segundo ele, o mundo do trabalho, os padrões de consumo e as expectativas das novas gerações são diferentes daqueles existentes nos primeiros governos petistas.
Belinelli avalia que o desgaste de lideranças com longa permanência no poder não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na sua visão, trata-se de uma tendência observada em diversos países da América Latina, marcada pelo esgotamento de ciclos políticos e pela busca do eleitorado por renovação.