
O número de empresas brasileiras em recuperação judicial aumentou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026. O total passou de 3.823 para 6.341 companhias, em um cenário marcado por juros elevados, crédito mais caro e maior dificuldade para renegociar dívidas. Os dados são da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial.
A alta também é observada nas recuperações extrajudiciais. Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), foram registrados 82 casos em 2025, contra 43 no ano anterior, crescimento de 90%. Até esta quarta-feira (18), 44 processos já haviam sido contabilizados em 2026.
Agronegócio concentra maior avanço
Entre os setores que mais contribuíram para o aumento das recuperações judiciais está o agronegócio. De acordo com o monitor RGF-BIZDOC, o número de empresas do setor em recuperação judicial cresceu 66% nos 12 meses encerrados no segundo trimestre deste ano, chegando a 1.265 companhias.
Transporte e logística aparecem na sequência, com crescimento de 24%, enquanto o comércio registrou alta de 22% no período.
Especialistas apontam que o agronegócio enfrenta uma combinação de fatores que pressiona a saúde financeira das empresas, como juros elevados, dificuldade de acesso ao crédito, queda nos preços internacionais das commodities, aumento dos custos de produção e perdas provocadas por eventos climáticos.
Juros altos dificultam renegociação de dívidas
A taxa Selic permanece em 14% ao ano e, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo, a manutenção dos juros em patamares elevados por um período prolongado tem aumentado o custo de capital para as empresas.
As taxas cobradas no capital de giro, que chegaram a ficar abaixo de 11% ao ano no fim de 2020, passaram de 26% no final de 2025. Em junho deste ano, estavam em 23%, conforme dados do Banco Central.
Ao mesmo tempo, o volume de crédito concedido às empresas recuou 0,9% nos primeiros seis meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. A inadimplência das pessoas jurídicas também aumentou e chegou a 4%, contra 1,5% registrado em dezembro de 2020.
Com o risco maior de inadimplência, os bancos passaram a adotar uma postura mais cautelosa na concessão de recursos, dificultando ainda mais o acesso das empresas a novos financiamentos.
Recuperação judicial é mais utilizada por grandes empresas
Embora pequenas e médias empresas representem uma parcela significativa dos pedidos de recuperação judicial, o mecanismo é proporcionalmente mais comum entre grandes companhias.
Segundo a RGF, a incidência chega a 14,4 casos a cada mil empresas de grande porte e 17,4 a cada mil entre as companhias consideradas muito grandes. Entre as microempresas, a proporção é de apenas 0,07 caso a cada mil.
Especialistas também destacam que o processo de recuperação judicial pode ter custos elevados, o que dificulta o acesso das empresas menores ao mecanismo.
A recuperação extrajudicial, por outro lado, permite que a companhia negocie diretamente com um grupo de credores antes de levar o acordo para aprovação da Justiça. O instrumento ganhou maior espaço após mudanças na legislação, que reduziram o quórum necessário para aprovação dos acordos.
Cenário pode aumentar pressão sobre empresas
Para especialistas, a desaceleração da atividade econômica pode ampliar as dificuldades enfrentadas pelas companhias brasileiras. Além do endividamento, empresas passam a lidar com maior pressão sobre receitas e capacidade de geração de caixa.
A avaliação é de que a recuperação judicial pode ajudar a reorganizar as dívidas, mas não necessariamente resolve problemas estruturais relacionados à perda de mercado, competitividade ou capacidade de geração de valor.
Os dados utilizados nesta reportagem foram divulgados pela consultoria RGF, pelo Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial e pelo Banco Central, com informações originalmente publicadas pela Folha de S.Paulo.
98fm