Pesquisa eleitoral não é ranking: o que observar nos números a 20 dias da votação

 

Foto: Gabriel Leite/98FM Natal

Quando uma nova pesquisa eleitoral é divulgada, a atenção costuma se concentrar imediatamente em duas perguntas: quem está na frente e quem cresceu ou caiu. A 20 dias das eleições, porém, esses números contam apenas parte da história sobre o comportamento do eleitorado.

Na reta final, fatores como indecisão, rejeição, voto espontâneo e a trajetória registrada ao longo de diferentes pesquisas ajudam a revelar se as candidaturas estão se consolidando e quanto espaço ainda existe para mudanças até o dia da votação.

É nesse estágio da campanha que será realizada a nova pesquisa Metadata/Grupo Dial, com entrevistas entre 10 e 12 de setembro e divulgação nesta segunda-feira (14), durante o Repórter 98, às 18h, na 98FM Natal.

Segundo a estatística responsável pelo Instituto Metadata, Karine Symonir, a diferença em relação às primeiras rodadas começa pelo próprio eleitor.

“Nas primeiras pesquisas, ainda tínhamos pré-candidaturas, articulações partidárias, convenções e um eleitor menos exposto à campanha. Agora, as candidaturas já estão definidas, a campanha está nas ruas e a propaganda eleitoral no rádio e na televisão já começou. Isso significa que o eleitor dispõe de muito mais informação para formar sua decisão.”

Mais importante que subir ou cair é entender a trajetória

Um dos cuidados necessários na leitura dos resultados está na comparação com pesquisas anteriores.

A simples diferença entre o percentual obtido por um candidato em dois levantamentos não é suficiente para concluir que houve crescimento ou queda.

“Não basta comparar dois percentuais e dizer que alguém cresceu ou caiu. É necessário considerar a margem de erro, o desenho amostral e, principalmente, a sequência das pesquisas”, explica Karine.

Segundo ela, a repetição de um movimento ao longo das rodadas fornece elementos mais consistentes para a análise.

“Quando um movimento aparece de maneira consistente em rodadas sucessivas e também encontra correspondência em diferentes indicadores, temos evidências mais fortes de uma tendência. Por isso a série histórica é tão importante.”

A diferença está justamente entre olhar uma pesquisa isoladamente e acompanhar uma sequência de levantamentos.

“Uma pesquisa isolada mostra uma fotografia. A sequência de quatro pesquisas permite começar a enxergar o filme da eleição”, resume.

Quanto voto ainda está em disputa?

Outro indicador ganha importância à medida que 4 de outubro se aproxima: quanto do eleitorado ainda não consolidou uma escolha.

Karine afirma que olhar apenas a distância entre os candidatos pode esconder uma das principais informações disponíveis no levantamento.

“Muitas vezes, uma das informações mais relevantes não está apenas na distância entre primeiro e segundo colocados, mas em quanto voto ainda está disponível para ser disputado.”

É nesse ponto que entram dados como indecisão, votos brancos e nulos, rejeição e a comparação entre voto espontâneo, quando nenhum nome é apresentado ao entrevistado, e estimulado, quando o eleitor escolhe entre uma relação de candidatos.

Quanto maior for a parcela ainda sem uma escolha consolidada, maior pode ser o espaço para alterações durante os últimos dias.

“Se houver muitos indecisos ou eleitores com escolhas pouco consolidadas, existe espaço maior para movimentação. Se as preferências estiverem mais cristalizadas, o espaço tende a ser menor.”

Propaganda eleitoral pode produzir mudanças?

A nova rodada também permitirá observar o cenário depois do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Segundo Karine, a exposição pode alcançar eleitores que não acompanham política cotidianamente pelas redes sociais ou pelo noticiário. A comparação, entretanto, exige cautela.

“Não podemos atribuir automaticamente qualquer mudança exclusivamente à propaganda, mas podemos observar se o cenário eleitoral se modificou depois da entrada nessa nova fase da campanha.”

A pesquisa poderá mostrar se houve alterações no conhecimento dos candidatos, na intenção de voto, na rejeição ou no nível de indecisão após o aumento da exposição das candidaturas.

Pesquisa mostra o presente, não prevê o futuro

A proximidade das urnas também aumenta a tentação de transformar pesquisas em previsões eleitorais. É justamente aí que, segundo Karine, está uma das principais diferenças entre o que o levantamento mede e a interpretação que algumas vezes é feita dele.

“Quanto mais nos aproximamos da eleição, naturalmente aumenta o interesse em saber ‘quem vai ganhar’, mas essa não é exatamente a pergunta que uma pesquisa responde.”

Entre o período das entrevistas e 4 de outubro, debates, acontecimentos políticos, estratégias de campanha, novas informações e decisões dos próprios eleitores ainda podem interferir no cenário.

“Pesquisa eleitoral é instrumento de mensuração da opinião pública, não previsão do futuro.”

Por isso, para Karine, a melhor leitura da reta final não está apenas no ranking das candidaturas.

“Pesquisa eleitoral não deve ser lida apenas como ranking. A informação mais rica está no movimento do eleitorado entre uma rodada e outra”, concluiu.